quarta-feira, 26 de abril de 2017

Refletindo sobre o Rio de Janeiro



A cidade que libertou os escravos, ainda precisa superar a violência, a desigualdade, o preconceito, a discriminação e a intolerância

Os negros se refugiavam nos morros: salve Zumbi! As rodas de samba só se realizavam nos vagões dos trens da Central do Brasil: salve o Samba! Os morros, redutos da carioquice, da boa malandragem, assim a como a Lapa, foram tomados pela violência, pelo tráfico de drogas e a eterna guerra imbecil de venda e repressão. Vieram as UPPs e a maquiagem e o extermínio oficial em nome de uma boa imagem internacional e para valorizar cada metro quadrado da cidade. Mas a questão dos direitos humanos é muito complexa, demanda muita discussão e, ainda, infelizmente, está longe de um bom encaminhamento, de uma solução, não só na cidade do Rio de Janeiro, como em qualquer outra cidade brasileira.


A princesa Isabel assinou, mas assinou, apenas. Os homens e mulheres, antes escravos, depois libertos, continuaram acorrentados, pois não tinham um lugar para si na cidade, nem sequer meios para o próprio sustento, e viveram uma falsa liberdade, assim como se faz até hoje no Brasil, onde tudo resulta numa mera ficção política, desde a proclamação da independência até a ficção de eleições livres e de uma suposta democracia. Tudo no Brasil se costura nos gabinetes e pouco vem de um empoderamento dos cidadãos comuns.

No Rio, como em qualquer outro lugar, existe a cidade, os serviços e os territórios, para as pessoas de condição econômica melhor e para os menos favorecidos. Sim, mas esta é a cidade real, palpável, que percebemos caminhando pelas ruas, pelas regiões da cidade. Uma cidade mais palpável no encontro de todas as tribos na Lapa ou na praia. E só, apenas isso. Mas existe uma cidade pior, aquela que poucos fazem questão de ver: é a cidade que discrimina, que pratica a intolerância, o preconceito e o ódio.

Libertamos os escravos, e nossa polícia militar do estado mata, a cada dez jovens, sete negros pobres moradores de favelas e comunidades e do sexo masculino, assim como aponta o relatório anual da Anistia Internacional. Ataques às mulheres, aos negros, aos índios, aos homossexuais, aos trabalhadores do campo e da cidade, à população pobre, aos terreiros de umbanda e candomblé expulsos das suas localidades por milicianos ou traficantes, assim como o ataque permanente aos usuários de drogas, que são cada vez mais marginalizados. Problema maior é quando se percebe que os oprimidos se revezam também no papel de opressores, seja por conveniência, por ignorância política, seja por egoísmo, seja por não passarem de simples massa de manobra de uma elite inteligente e audaz.

A maquiagem da cidade vem da remoção de moradores de baixa renda do grande centro para as zonas bem periféricas da cidade, vem de governos que falam em blindar as escolas, em erguer muros ao redor delas, ou que colorem os barracos dos morros, ou que levantam tapumes nas vias expressas. Apesar disso, superar tudo isso é o objetivo de muitos de nós. Isso, tudo isso, isso tudo, é o reflexo da reprodução de um modelo de sociedade que não tem mais razão de ser e que, muitos de nós, quase todos nós, também reproduzimos, maquinalmente, com maestria, toda manhã e o dia todo.

Um comentário:

  1. Uma lei não muda necessariamente a cultura... mas com certeza é um ótimo primeiro passo... infelizmente a mudança na cultura está demorando demais até

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