quinta-feira, 27 de abril de 2017

Casa Nem: símbolo de resistência social no coração do Rio

A Casa Nem, no coração da Lapa, é uma ocupação LGBT que, além de resistir aos revezes da política e ao ataque do conservadorismo crescente na cidade do Rio de Janeiro, ainda abriga e dá suporte a uma população fragilizada


Numa quinta-feira, uma palestra ou debate aberto. Sexta-feira à noite, uma festinha bem descontraída ou um bom Dj com sua batida enquanto a rua em frente fica lotada. Numa manhã, um curso gratuito e preparatório para o ENEM ou vestibular: o PreparaNem. E numa tarde qualquer, um almoço coletivo e o acolhimento de uma população LGBT, especialmente de travestis e transsexuais em vulnerabilidade social. Assim se constitui a Casa Nem, um lugar de luta permanente por direitos e igualdade. Lá estão pessoas desabrigadas, sem apoio familiar, sem renda, que na maioria das vezes sofreram algum tipo de violência doméstica ou na rua, e que ali encontram uma zona de conforto, de apoio, de refúgio moral e psicológico para sobreviver, para seguir adiante.


foto: divulgação





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“Essa história de que o Rio é uma cidade Gay Friendly é só para as pessoas que tem dinheiro e que vem de fora, porque os daqui, que moram em favelas, que não tem dinheiro, são agredidas e são expulsas dos locais. Gays e lésbicas perdem direitos. As trans perdem todos os direitos”



Indianara Siqueira




A ativista Indianara Siqueira comanda a Casa Nem com a ajuda de outras companheiras que aderiram à causa e de inúmeros voluntários, que colaboram doando roupas e alimentos, além de pessoas ligadas às universidades que dedicam parte do próprio tempo para oferecer o curso preparatório para o ENEM ou vestibular. Hoje a Casa abriga 36 pessoas e conta com outras 17 que usam a Casa para fazer higiene pessoal e se alimentar. Geralmente se oferece café da manhã, almoço e jantar. Quando as doações são maiores, o pessoal põe a mão na massa e oferece sopão para cerca de 200 moradores de rua. A Casa é autossustentável. Além de doações e do voluntariado, também angaria alguns recursos durante as festinhas que promove e que viraram um novo point da noite carioca na Lapa e garantem a manutenção do espaço.





fotos: divulgação


E não para por aí. O trabalho ganhou força e projeção. Já existe um PreparaNem em Niterói e outro na Maré, através de parceiros locais. Também existe atendimento e acompanhamento psicoterapêutico, o curso de alfabetização, AlfabetizaNem, o curso de modelagem e costura, o CosturaNem, além das oficinas de fotografia e dramaturgia, FotografaNem e AtuaNem.

A Casa Nem se tornou um símbolo de que, com boa vontade, solidariedade e um olhar atento, é possível estender a mão de maneira direta e ajudar quem precisa. Em se tratando do atendimento a travestis e transsexuais, trata-se de uma verdadeira revolução social. Já são dois anos de ocupação e resistência. Às vezes chegam "ordens" para que deixem o local, mas o pessoal resiste e fica.

" Os principais desafios são a convivência entre pessoas tão destruídas pelo sistema cisheteronormativo (referindo-se à normatividade de gênero) e inseri-las novamente na sociedade, tornando-as, também, multiplicadoras da luta em prol dos direitos LGBT, da solidariedade, devolvendo-lhes a confiança e a auto-estima", observa Indianara Siqueira.




fotos: divulgação

E como não poderia deixar de ser, a Casa Nem também se tornou um ponto de reflexão política, envolvendo militantes de diversas áreas e movimentos. Esse engajamento e os anos de persistência na luta, renderam à Indianara 6.166 votos na última eleição, tornando-se a primeira travesti suplente de vereadora na cidade do Rio de Janeiro.

"Não é fácil. É um trabalho longo e que só é possível através da confiança que essas pessoas depositam em mim, através de uma militância de mais de 20 anos", completa a ativista.



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Indianara ganhou destaque por fazer um manifesto com os seios nus. Ela quer ser processada pelo Estado para confrontar os conceitos de gênero, de sexualidade.
"A lei diz que eu não sou mulher. Eu digo que sou mulher, que me declaro mulher tem muitos anos. Eles insistem em dizer que não, que sou homem, que legalmente sou homem. Então, com documento masculino, eu tenho o direito de andar com o peito de fora como todos os homens andam!", explica.
"Se sou detida, sou liberada em seguida. Eles não querem julgar a questão porque, julgar a questão seria o Estado, através de um Tribunal, reconhecer ou que sou homem ou que sou mulher. Eles arquivam, não dizem nada", conclui.



fotos: divulgação

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